Razão Impura

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Educação Não É Brincadeira, Mas Também Não É Coisa Séria

Publicado por Pompeu em Março 19, 2007

Na semana passada, Lula anunciou da seguinte forma que os ministros da saúde e educação seriam mantidos em seus cargos: “Eu acho que tem duas coisas que são fundamentais no Brasil: educação e saúde. A gente não brinca, a gente não partidariza. E a gente monta o governo com as pessoas que têm competência, com as pessoas que têm capacidade de montar um bom governo. Porque, na saúde, se você brincar, é morte. Na educação, se você brincar, é analfabeto.”. Fico feliz que o presidente ache a educação coisa séria, ao ponto de não brincar com a pasta nomeando Marta Suplicy, por exemplo. Mas fora isso, ainda estou esperando seriedade na política de educação.

Ok, com educação não se brinca, mas ao mesmo tempo nossa educação só pode ser piada. E de extremo mau gosto! Os resultados estão por aí. São alfabetizados que, quando conseguem ler algo além de umas poucas palavras, não conseguem interpretar textos simples, como notícias de jornal. Conhecem os números, mas são incapazes de calcular. Quando possuem o ensino básico completo, mostram-se apenas pouco menos analfabetos que nossos alfabetizados. São incapazes de produzir uma redação simplória que não contenha pelo menos três erros ortográficos por linha. E para quem anda se vangloriando do diploma de curso superior, aí vai um bom exemplo da nossa decadência: Quando comecei a dar aulas numa universidade particular do Rio, numa das turmas havia uma aluna com síndrome de down. Eu sei que pode parecer preconceituoso, afinal a Clarinha nos mostrou o quanto são capazes. Mas a questão é que se tratava de um curso de Administração, a disciplina era Filosofia da Ciência e a turma já estava no terceiro período e, pasmem, a aluna jamais havia sido reprovada! Não acredita? Pois tem mais: avaliada, saiu-se melhor nas provas que seus coleguinhas, cromossomicamente normais. Claro que sua prova não era grande coisa, mas a do restante da turma não era coisa alguma. Aprovei-a também, não por pena, mas por justiça, pois se os outros se mostraram tão ou mais incapazes do que ela, reprová-la seria preconceito. Se você está pensando que eu deveria ter reprovado a turma toda é porque não faz a menor idéia do que é uma faculdade particular.

Este é um bom exemplo dos resultados da educação superior brasileira: formamos bacharéis que em termos intelectuais são superados por portadores de síndrome de down. Nossos bacharéis não conseguem interpretar textos, não entendem raciocínios sofisticados, lêem pouco e reclamam muito. Enfim, não possuem um repertório mínimo para atribuir qualquer sentido ou valor aos discursos aos quais são submetidos. Diante da incompreensão, não se esforçam para superá-la, revoltam-se. Aprendi ao longo destes dez anos em que exerço como única atividade a docência que quanto pior o aluno, mais ele reclama. São uns chatos. Se não entendem nada, a culpa evidentemente é do professor, ou do texto, incompreensível. Se perguntar qual texto seria compreensível, é provável que respondam A Raposa e a Uva, indicado para crianças até seis anos de idade. Diziam que crianças portadoras de síndrome de down eram violentas. Besteira. Reagem de forma violenta à incompreensão e à indiferença. Os nossos chatos também não são diferentes. Reclamam porque não entendem nada e ao mesmo tempo não são entendidos. Passaram a vida inteira vendo sua inépcia sendo recompensada com a provação e agora vem um professorzinho mal remunerado querer lhe impor a obrigação de estudar? Mas que despautério! Abaixo-assinado nele.

A deficiência intelectual de nossos estudantes não é conseqüência de uma deficiência individual, mas coletiva. É a síndrome de down social. Ninguém valoriza a cultura, quem disser o contrário, ou é franca minoria no Brasil ou não sabe o que é cultura. A maioria confunde cultura com folclore. Chamaram-te para uma feira cultural? Então se prepare para ver banda de congo, boi bumbá, maracatu rural. Veja o caso do Espírito Santo, que elegeu a moqueca um dos principais símbolos de sua cultura. Você sabe temperar moqueca? Seu inculto! A cultura não se mede pela capacidade de preservar antigos costumes, mas pela capacidade de interpretar o mundo, de dar-lhe significado. Cultura é entendimento e não dança ou culinária. Muitos vêm bandas de congo e bois bumbas com seus coloridos e rituais, mas não conseguem atribuir o menor sentido, não os entendem, não conhecem as circunstâncias históricas do seu surgimento, os porquês de suas roupas e danças. Alguém que possui cultura, entende o folclore, quem não tem, vê apenas um pessoal dançando um troço esquisito vestindo roupas coloridas. Quem não pode compreender, vê apenas a imagem, o exterior. O mesmo se dá com a educação, quem tem alguma cultura, sabe que o aprendizado é que importa na educação, quem não tem, pensa no resultado, na sua exterioridade. Por isso o aluno bom quer aprender, o ruim quer diploma.

Nossas políticas de educação apenas refletem a deformação de nossa cultura. Prestigia-se a quantidade em detrimento da qualidade. Sucesso! Foram criados em média de 3,4 cursos superiores por dia em 2003. Quantos países no mundo conseguem tal expansão? E a maioria destes nas áreas de administração, direito e educação. Muito interessante, pois um país certamente se torna uma potência econômica quando possui uma enormidade de advogados, administradores e professores mal remunerados. Engenheiros, químicos, físicos, biólogos, geólogos, etc. parecem que são plenamente dispensáveis. Os salários refletem o apreço social pelas carreiras superiores. Comparem, por exemplo, o salário de um professor, cuja profissão está ligada à cultura, com o de um juiz, cuja profissão está ligada ao exercício do poder. Sim, eu sei, cultura também ajuda, mas, convenhamos, ninguém se torna juiz porque é culto, ainda que vários o sejam, mas porque passou numa seleção que prestigia a decoreba da lei, da doutrina e da jurisprudência e não o senso crítico. Tudo bem, comparar com salário de juiz chega a ser covardia, então que tal com o do policial rodoviário federal? É 20% maior do que o de um professor doutor em universidades federais. Pra que fazer um doutorado? Quem é tão inteligente para ser doutor e, ao mesmo tempo, tão estúpido para desperdiçar seu talento com uma profissão tão mal remunerada, tão inútil numa sociedade cujo nível cultural não ultrapassa o da moqueca? Certo mesmo são os maus alunos, os que só querem diploma, aqueles que desmorecem ante a sagacidade intelectual de uma colega com síndrome de down, eles são coerentes com o país e a sociedade em que vivem, seu mais original e dileto produto. Têm todo um futuro glorioso pela frente, como medíocres a mediocrizar o Brasil. Quanto àqueles que não se renderem à mediocridade, ou às nulidades que tanto triunfam, como dizia Rui Barbosa; se as coisas continuarem assim, um dia serão convidados a desaparecer do país, provavelmente através de uma campanha com o seguinte lema: “Brasil ami ele ou deiche ele”.

7 Respostas para “Educação Não É Brincadeira, Mas Também Não É Coisa Séria”

  1. Fabio Fregona disse

    A situação de nossa educação é tão calamitosa que não precisa ser professor, muito menos ter vários anos no magistério, para percebê-la.
    Tive oportunidade de cursar dois cursos superiores, administração e direito (lembrei agora de uma brincadeira que fez em sala quando disse que, antigamente, quem não sabia o que fazer, fazia administração, e hoje, com o prestígio do judiciário, quem não sabe o que fazer, faz direito! Concluo então, analisando somente premissa maior e menor, como no “sistema lógico matemático liberalista”, que sou duplamente indeciso. hehehe).
    Administração cursei em uma faculdade particular daqui de Vitória. Como sabia alguma coisa de matemática, ajudava uns amigos na matéria Matemática Financeira 2. Certo dia, estava resolvendo um problema para uma colega observar, quando ao final do cálculo restava a expressão: “X + 3 = 3”, cai na besteira de perguntar a ela, qual era o valor de X. Ouvi como resposta 3 (previsível), afirmei que não, ela disse então 2, depois 6, ai desistiu.
    Resumindo a história, colou grau com louvor no mesmo ano que eu.
    Como uma pessoa com esse grau de conhecimento chega a uma faculdade? Tudo bem, ela podia ser boa nas outras matérias, física, por exemplo. Depois de chegar, como conseguiu passar pela Matemática Financeira 1? Da mesma forma que passou pela 2 no semestre seguinte.
    Isso porque estamos falando de nível “superior”. Imagina então o que é um curso supletivo? Como é, não sei, mas tenho amigos que fizeram da quarta a oitava série em menos de 1 ano. Tudo bem que eles tinham a técnica! Bastava fazer a prova duas vezes, a primeira para copiar as questões da prova, a segunda, para copiar as respostas na prova, que era a mesma…
    Educação no Brasil é para inglês ver, brasileiro também.
    Será de enorme valia nas eleições, elegendo, ou reelegendo, uma galera, aqueles que fizeram os melhores discursos enaltecendo-a, mostrando números e porcentagens (e que tenham grana para colocar bandeirinhas em cada sinal da cidade).
    A força política não está engajada em resolver o problema, a idéia é maquiá-lo.
    Mas como disse nosso ilustre presidente, “com educação não se brinca”, pois é, a coisa é séria! Agora, se o analfabeto tem diploma, não é mais problema meu…

  2. Elisabeth Sanches disse

    Acho que o noticiário de hoje que traz a tona tantos, que entre aspas, receberam educação, nos quais o tipo de educação,a falta de valores ,de consciência do certo e errado ,a falta de piedade , de pudor,de dignidade, abarcados pelas facilidades do sistema ao qual se ambientam, os fizeram privilegiados no que tange a impunição reinante no nosso pais.

  3. Gostei muito deste post ! Sou Professora do Ensino Fundamental ( Rede Municipal ) do Rio de Janeiro. E aqui a situação da educação, que já era péssima, ficou patética. Um sistema de Ciclos de Formação foi enfiado goela abaixo dos Professores.Nninguém discutiu, planejou ou capacitou ninguém. Foi tudo feito – me desculpe- nas coxas. Não que eu tenha nada contra ao Ciclo, mas está sendo mal implantado e é mais uma oportunidade jogada no lixo. É bom ver pessoas, Professores principalmente, com os dois pés no chão ! Parabéns !

  4. Paulo C V Serrano disse

    Sou profissional de segurança pública e posso garantir que não só educação é negligenciado neste pais, estado, município. Onde procurar vai encontrar descaso. Certa vez, lendo um artigo escrito por um velho professor, que por muito tempo dirigiu uma grande escola particular em Belo Horizonte. Neste artigo, o professor fez um desabafo, disse que no Brasil educação na esfera particular é meio de ganhar dinheiro, na esfera pública meio de fazer política…é sempre meio, nunca fim. Como servidor na área de segurança publica fico preocupado que a mesma logica, constatada pelo velho professo, seja ferozmente aplicada. Agora, creio que o geral impera, mais espero e trabalho para que o esta mesma lógica seja superada. Não que seja melhor que alguem, talvez seja tão mediocre quanto os demais não portadores de trisomia cromossomial ( do 21 ), talves suplique nota e quera obter diploma. Mais garanto que luto para superar esta deficiência, que talvez seja de carater, de acomodação, ou mesmo de oportunidade. Sei lá. E obrigado professor, pela reflexão. Pretendo leva-la para meus companheiros de trabalho da Guarda Civil Municipal de Vitória, e tenha certeza que lá sera acolhida. Se não por todos , pela maioria. É um grupo que tem muito gaz, e estão ávidos por prestar um serviço de qualidade junto as comunidade presente no município de Vitória. A pesar do fato de está a instituição a margem dos intereces das autoridades municipais. Seja secretário, seja prefeito, seja vereadores. má garanto, este senhores não serão obstáculo para que esta instituição, que é nova, com esforço de seus integrantes, ofereça um serviço de qualidade a seu verdadeiro cliente, o cidadão…

  5. Artigo/Opinião:

    Educação Pública é Coisa Séria

    Enquanto você vê em todos os estados a atuação brilhante, ampla, total, irrestrita e determinada do Ministério Público, com quase todos os governos sofrendo o crivo de ações investigativas com rigor e transparência, podemos dizer que, em São Paulo, por exemplo, falta uma área do Ministério Público afeta aos Direitos Humanos dos Professores Públicos. Para começar, em São Paulo o Educador ganha menos trinta por cento do que o professor do Piauí, e ninguém faz nada, ninguém crítica ou investiga. Suspeito. Caso de se denunciar à ONU? Para piorar, amigos da escola não são necessariamente amigos da escola, quando não mesmo são amigos do alheio na escola, por assim dizer, muitas das ONGs tendo como membros ex-secretários da educação e afins que, quando no governo nada fizeram, pioraram ou até quase faliram a educação pública, e agora, na rede privada, suspeitamente ganham dinheiro palpitando e oferecendo régios préstimos que precisam ser investigados. Estranho. E ninguém age em favor de uma transparência pública na área. Depois, por incrível que possa parecer e, considerando que a Educação Pública é coisa séria, pacotes suspeitos e regiamente pagos (só para grupos privados) são impostos para a escola pública de cima pra baixo (sem qualquer noção da clientela real ou da realidade docente), de forma pouco ou quase nada ético-democrático, sacrificando sobremaneira a equipe técnico-administrativa das escolas (já desafasadas nesse sentido; sem aparato de estrutura funcional), como se cada decisão de gabinete com ar refrigerado (a vida na escola é outra coisa) fosse um doloroso “passa-moleque” no professor que, por incrível que pareça, com curso superior e com um puxado concurso avaliatório muito mais difícil do que para delegado, por exemplo, ganha menos do que um policial com mero ensino médio. Aliás, São Paulo é o único estado em que professor ganha menos do que policial. Já pensou? Pois é. O Professor qualificado, testado e efetivado, tem que trabalhar em duas escolas ou mais, fazer bico (pra recompor o salário) de vendedor a camelô-sacoleiro em trânsito, enquanto, aqui e ali, nalguma propaganda enganosa de certo governo mais pro neoliberal do que para o ético-humanitário, tudo é uma beleza, parece que estamos em Genebra, na Suíça. E ninguém faz nada, ninguém fala nada. Quem tem medo da Escola Pública? Todo mundo de gabarito e vencedor teve um professor pela frente um dia, para ser o que é. Mas, quando o governo federal sabiamente aventa alta verba para a escola pública, sanguessugas e vampiros da Educação se mobilizam e querem fatias do bolo, parcela da grana, muitos deles que já estiveram no poder e não resolveram nada. Como querem ter moral para fundarem ONGs de becos e se meterem a analistas, pesquisadores, teóricos de ocasião, donos da verdade? Nas escolas faltam funcionários, falta suporte operacional, o professor tem que se virar para passar conteúdos mesmo quando uma ou outra sala periférica mais parece uma micro-febem; idéias estranhas são impostas de cima pra baixo, o professor é sempre surpreendido com coisas esdrúxulas ou mal feitas, sem nunca ser consultado quando deveria ser, quando ele é melhor do que o problema; autoridades passam, boas ou más, o servidor concursado, efetivo, sofredor, estudando ainda, fica com o peso do problema, o ônus da situação sócio-cultural, quando na realidade não se vê lucros, ou saca montagens de mudanças que na verdade não mudam nada, são apenas vernizes, aparências que enganam e depois, eventualmente ainda servem para paradoxais horários políticos eleitorais. Quando é que, realmente, de verdade, alguma mudança de peso democrático vai ocorrer na escola pública, pois eu sou do tempo em que professor ganhava o mesmo que um juiz, e hoje, professor tem que se matar para sobreviver e ainda agüentar a parte tendenciosa da mídia que, na verdade, quer cada vez mais privatarias do que humanismo de resultados. Será que as instituições sérias, de renome, que defendem a escola pública, têm que denunciar em foro internacional o salário constrangedor e degradante dos professores de São Paulo? Alguém já pensou em fazer uma reportagem investigativa da vida das Diretoras das Escolas de São Paulo, do que elas se matam para ganhar menos do que um motorista de ônibus de São Paulo?. Ser diretora de escola pública é a prova inconteste e cabal da própria violação dos direitos humanos de uma profissional que carrega um problemão nas costas, e ninguém faz nada, ninguém dá suporte efetivo de funcionabilidade, quando não empresas privadas a guisa de investir (e glosar o imposto de renda?) atuam nas escolas e querem o que não podem e legalmente não deveria sob uma ótica ético-legal. A verdade dói. Escola Pública é coisa séria. Bônus, pacotes, infiltrações de amigos do alheio no meio não compactuam com o ideário dos Professores realmente comprometidos com uma educação de qualidade. Ou mudam as falsas mudanças, ou a escola pública não vai ser mudada como realmente precisa ser e deveria ser. Quem é que vai pagar por isso?
    -0-
    Silas Correa Leite, Especialista em Educação, Jornalista Comunitário, Escritor premiado, autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design-SC, Prêmio Ligia Fagundes Telles Para Professor Escritor, CRE-Centro de Referência em Educação Mário Covas
    E-mail: poesilas@terra.com.br – Blogue: http://www.portas-lapsos.zip.net – Site: http://www.itarare.com.br/silas.htm

  6. Renan disse

    Onde assino?

    Muito bom professor. Parabéns.

    Brasil é o país do papel, vale o que se tem no papel. Capacidade? Isso não é importante por aqui, não é à toa que os melhores em várias área do conhecimento vão para fora do país.

    A verdade, é que o Estado se preocupa em mostrar aqui e lá fora, os númereros do “crescimento” da educação do Brasil.

    Concordo com Olavo de Carvalho, que o Brasil para mudar, depende de criar uma nova elite intelectual, não existe educação em massa de qualidade, se educa poucos, que passam para outros, e vão multiplicando com o passar dos anos.

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