Razão Impura

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Burrocracia

Publicado por Pompeu em Abril 24, 2007

Sou servidor público. E ainda por cima desempenho uma função burocrática na universidade. Isto significa que eu sou responsável por despachos curtos e mal redigidos sobre processos, boa parte das vezes, insanos. Tudo funciona como que por movidos por uma inércia acéfala. Alguém preenche um formulário ou um requerimento, carimbam-lhe, autuam-lhe, dão-lhe capinhas coloridas, juntam outros papéis. Neste momento aquele papelzinho mixuruca ganha uma espécie de aura de importância: torna-se um processo (pausa para exclamações – Oh!!!…). Burrocratas o pegam no colo como a um bebê, e o contemplam com queixo erguido e olhos embotados, em sinal de orgulhosa admiração. Em trajes de gala acartonada, começa seu périplo. Mandam-no para alguém que mandará para outro alguém que, por sua vez, fará o mesmo e assim por diante. Cada alguém dá sua contribuição inercial. Cada um com seu carimbo e despacho mal redigido. Até que cai nas mãos de alguém que não encontra mais ninguém para mandar a papelada carimbada, encapada e autuada. Só pode mandar de volta para o lugar de onde veio. É o momento no qual não dá mais para enrolação. É preciso mais do que um despacho, mais do que uma carimbada. É o clímax. Pedem uma decisão. Ou um parecer, que é algo entre a decisão e um despacho: é mais importante e decisiva do que um despacho, porém não é definitiva como cabe a uma decisão. É uma espécie de conselho que constrangerá alguém acima de quem a fez a acatá-la sob pena de ter que se dar ao trabalho de explicar porque não a acatou. Mais fácil acatá-la. Geralmente isto cabe a algum mané nem tão desimportante para sequer carimbar o papel, nem tão importante para dizer que decide alguma coisa. Às vezes, este mané sou eu. Mas capricho na minha desimportância idiota. Afinal, se é para fazer, que seja bem feito!

 

Outro dia uma professora aposentada, testemunha de uma colação de grau do Curso de Direito, assustada com a barulheira catártica típica desse tipo de, de… vá lá, cerimônia. Mandou uma carta ao reitor. Demonstrava sua indignação e relatava o cerimonial: buzinas em spray, apitos insuportáveis, cartazes tipo “eu te amo”, sucesso fulaninho” ou “filma nóis Galvão”, serpentinas e confetes. Nada lhe lembrava a pompa, a circunstância e a aura de nobreza que ela esperava encontrar em uma colação de grau de um curso como o de direito. Era uma frustrada pelo desencontro entre a barulhenta realidade e a branda sinfonia em nobre e faustoso ambiente que imaginava. Frustrada escrevia. Narrava seu desencanto, sua indignação. O “tom” do texto era mais de melancolia do que de raiva. Era frustração melancólica adornada com saudosismo de tempos outros quando tais cerimônias pareciam mais dignas do nome. Carta até bonita.

 

Recebida em típico protocolo, foi carimbada, autuada e encapada. Juntaram-lhe papéis e ei-la à mesa do Magnífico. Rabisco daqui e ponto ali; um carimbo e pronto! Ao Pró-reitor de alguma coisa. Mais floreios com a bic, mais carimbos e nova viagem: À Diretoria do Centro. Passeio de quase uma semana pelo campus e ei-la novamente à espera de mais rabiscos. Feitos com a elegância protocolar que denotam eficiência e um novo endereço: ao Coordenador do Colegiado, ou seja: eu. Li e reli. Meditei… longamente… mais do que você imagina… e concluí: “mas que diabos querem que eu escreva aqui?”. Vejam as hipóteses: 1- o documento seria um requerimento ao reitor para tornar os formandos e o público mais educados; 2- o documento é um desabafo feito por uma amiga de infância do reitor e que, por engano, foi convertido em processo e acabou na minha mesa; 3- é um trote; 4- Os fatos narrados foram considerados como uma espécie de denúncia cuja apuração me caberia, concluídos estes eu deveria formular algum tipo de parecer sobre o assunto para que alguém decidisse alguma coisa que eu não sei muito bem o que poderia ser. A primeira hipótese implica a existência de alguém a acreditar que toda deseducação do povo brasileiro é fruto do fenomênico aguardo de uma ordem do reitor da UFES. Não, acho pouco provável. A segunda hipótese também não parece plausível, pois faltam na carta aqueles indiscretíssimos comentários típicos de correspondência privada. A terceira hipótese é bem plausível, se bem que tem carimbo demais na papelada. Melhor descartá-la. Fiquei com a última.

 

Primeira etapa vencida. Já sei o que podem querer de mim. Uma investigação. Pensei em convocar todos os servidores do Colegiado, no caso a Arlene, e enviar intimações para todas as pessoas presentes à colação para que prestassem o seu testemunho sobre os fatos, mas não há papel, endereços, tinta, selos e nem dedos para tudo isso. Além do mais me falta o principal: algum conhecimento ou talento para investigar qualquer coisa. Não sou detetive, sou professor. Professores ensinam e produzem discursos. Ensinar não cabe num processo, só me restava produzir um discurso. Consumi cinco folhas de papel pautado e alguns miligramas da tinta da esferográfica que alguém deixou em cima da minha mesa. O resultado foi um dos mais cínicos textos que eu já escrevi, e olha que eu tenho treino no assunto! Concordei com tudo que a colega aposentada afirmara. Afinal, fazê-lo é ainda mais fácil do que fazer de conta que apurava alguma coisa. Ressaltei suas observações e concluí que é tudo culpa da pós-modernidade, que ardilosamente provoca os desejos causando uma geração de jovens narcisistas e sem limites, capazes hoje de algazarra em tão respeitável evento, amanhã, quiçá, capazes das mais bárbaras atrocidades por simples capricho. Sugeri como solução a repressão. Que fossem disponibilizados vários seguranças, devidamente paramentados e bem armados para intervir com força bruta no caso de algazarras, capazes de garantir a nossa sobrevivência nessa selva cultural pós-moderna.

 

Este meu parecer já foi feito há algum tempo. Mandei-o pelo caminho de volta. Desde então eu estou esperando que alguém venha me perguntar se o que escrevi é sério. Algum pito, alguma repreensão. Nada. Enviado o processo ficou o vazio da mesa, rapidamente preenchido por outro e outro e outro. Daquele, eu nunca mais ouvi falar. Tudo continua como sempre. As colações também. O meu medo é terem me levado a sério. Dado ao meu parecer a mesma seriedade processual que envolveu a carta. E numa colação de grau futura, a balbúrdia alegre e catártica será substituída por um ordeiro, respeitoso e silencioso medo. Arrependi-me. Desde aquele processo, colações nunca mais foram as mesmas. Fico espreitando, à procura dos seguranças armados.

2 Respostas para “Burrocracia”

  1. Raphael disse

    Mas é culpa da pós-modernidade mesmo. Desgraçada!

  2. cleanto siqueira disse

    Excelehte e provocante o seu texto sobre burocracia.

    Neste momento, no intervalo entre uma aula e outra, vou imprimir o texto para ser lido na segunda aula da turma de teoria geral do processo.

    Por uma feliz coincidencia, a primeira aula foi sobre os aspectos politicos do processo (instrumentalidade, efetividade, etc.) Agora, na segunda parte da aula, vamos conversar sobre as questoes juridicas, dentre as quais, o inevitavel aspecto burocrático do processo que, nos dias de hoje, se pretende minimizar com a tal “justiça virtual”.

    Tomo emprestado seu texto e sou grato.

    Forte abraço.

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