Razão Impura

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O dia em que chegaremos “lá”

Publicado por Pompeu em Junho 11, 2007

Ano passado, a pedido de um amigo, respondi a um questionário onde deveria dar minhas opiniões pessoais sobre o mundo do trabalho. Estas respostas comporiam um relatório de pesquisa do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – sobre o imaginário e perspectivas de profissionais bem sucedidos. Apesar de ser professor, consideraram-me um profissional bem sucedido. Foi um erro. Profissionais de sucesso costumam dar respostas otimistas, vêem o mundo com bons olhos, acham os pessimistas apenas uns fracos, derrotistas que se não chegaram “lá”, seja lá onde esse tal de “lá” for, foi por culpa própria. Já eu, que alguém achou que fosse alguém que chegou “lá”, olhando em volta o “lá” onde eu cheguei, dei as respostas que se seguem. Todas pessimistas, catastrofistas. Tempos depois, meu amigo entrevistador me disse que adoraram minhas respostas. “Como assim?” Pensei. “eles não acharam que eu estava de sacanagem? Que a minha visão do futuro fosse apocalíptica demais?”. “Não, e querem lhe fazer mais perguntas”. Depois eu entendi o motivo, os pesquisadores do PNUD eram professores argentinos. Leiam a íntegra da entrevista e tirem suas próprias conclusões.

 

 

2.1 – Considerações gerais sobre o trabalho

Creio que o trabalho seja um suplício, uma provação. Em toda cultura ocidental, até o século XIX aproximadamente, o trabalho foi visto como algo ruim, uma espécie de mal necessário. Basta observar, por exemplo, o antigo testamento: no livro de Gênesis Deus teria dito ao homem após a expulsão do paraíso – Retirarás o alimento com o suor do teu rosto! Uma provação, como já disse. O problema é que ao longo da revolução industrial o trabalho foi convertido de mal necessário em virtude, em critério dignificador do bom burguês. Do bom “pater familis”. Tratava-se de uma época em que todo indivíduo deveria ser um operário e um soldado em potencial. Período de arregimentação total das forças humanas do Estado. Período em que foram inventados o crime de vadiagem e o serviço militar obrigatório. Não ser soldado e operário era não ser social, não ser incluído. Desviante. Naquele tempo era não só desejável como possível incluir toda massa no binômio soldado-operário. Hoje, porém, graças às transformações nas formas de trabalho possibilitadas pela tecnologia e pelo avanço dos chamados processos industriais de produção, o trabalho não necessita mais de tantos operários. Mesmo as guerras não necessitam mais de tantos soldados. Somos uma sociedade de trabalhadores, que eticamente se identificam por suas funções laborais, pela posição social que o trabalho lhes confere, mas que não mais possui trabalho para todos, que não mais necessita de todos. Não ter trabalho tornou-se sinônimo de não ser social, não ser humano. Ser sobra, resto, algo indesejável. Um paradoxo: devemos amar um suplício, pois ele é a condição de nosso reconhecimento social, de nossa existência.

 

2.2 – Que mudanças considera que ocorrerão nos próximos 10 ou 15 anos?

Não é fácil prever tendências. De uma forma geral temos duas opções: I- ou os processos sociais de exclusão humana se acentuam na medida em que a tecnologia avança, o que nos levaria ao desenvolvimento e fortalecimento de eugenias, de uma guerra social marcada por privilegiar processos industriais de exclusão social, pela produção de fábricas de morte tal qual ocorreu com o nazismo no século XX. Perceba como a ultra-direita de vários países europeus, nas américas e, pasme, até mesmo em Israel, ganha espaço com discursos de segregação e pregações de políticas que ganhariam aplausos de Hitler. II – A segunda opção, ou hipótese, seria a reinvenção de nossos laços sociais, de nossas identidades e de nossa hierarquização social independente do trabalho. Uma forma que nos permitisse dignificar o homem independente do trabalho, na qual este se torne apenas um mal necessário e não condição par a inclusão social, na qual o homem consiga libertar-se dos suplícios laborais, graças à tecnologia, sem uma conseqüente eliminação dos sem-trabalho. Se na primeira hipótese temos os discursos de extrema direita como exemplo, como sintoma, para a segunda hipótese, não há nada que nos indique um passo sequer nessa direção. De uma forma geral, uma é uma perspectiva pessimista, a outra, otimista, infelizmente os pessimistas costumam ter razão. Eu jamais procurei subestimar a decadência humana, se for para apostar, fico com a primeira hipótese. Caminhamos para um tecno-racismo-laboral.

 

2.3 – Que mudanças ocorrerão em sua região?

Meu país é dito emergente e minha região um Estado da Federação onde há grandes empresas sem, contudo, haver distribuição de renda ou grandes melhorias em termos sociais. Os hospitais públicos são medonhos, a Capital tem o pior índice de saneamento básico do país dentre todas as regiões metropolitanas e a educação continua sendo tratada apenas como plataforma para propagandas eleitorais. Enfim, temos indústrias, mas não temos empregos criados na mesma velocidade com que as indústrias crescem. No campo de serviços, em geral, que tornou-se uma opção ao refluxo dos postos de trabalho na indústria, também vem sofrendo refluxos não só pela tecnologia, mas por força de uma certa estagnação causada pela falta de mão de obra especializada. Por uma questão eleitoreira, privilegiamos ao longo dos últimos tempos políticas de educação que visam dar diplomas ao invés de ensinar alguma coisa, como resultado temos uma massa de pessoas que concluíram o ensino secundário ou básico e, no entanto, podem ser considerados analfabetos funcionais, incapazes de lidar com tecnologia ou mesmo com simples manuais ou qualquer texto escrito de uma forma geral. A sociedade de sem-trabalho é também uma sociedade de sem-letras. Some-se a essa estagnação o fato de que o setor de serviços não representa, em termos econômicos,, o mesmo tipo de crescimento econômico, de enriquecimento de uma nação, de uma região econômica, do que o crescimento proporcionado por uma indústria que produz bens cuja tecnologia agregada pertence ao país ou região. Vide o caso do México, onde a economia não só estagnou após uma onda de rápido crescimento, como o resultado de tal crescimento foi a criação de postos de trabalho em setores de serviços e indústrias de montagem de produtos manufaturados cuja tecnologia pertence a grandes economias, a países que possuem um política de educação minimamente digna do nome. Este crescimento econômico não resultou em um grande salto de melhoria das condições sociais do trabalho, ao contrário, gerou uma espécie de competição pela eliminação de direitos sociais que barateiam a mão de obra e tornam o país competitivo, mas isso apenas até o momento em que outro país não apresente condições mais favoráveis para a produção sem tecnologia, ou seja, que consiga de forma mais eficiente beirar a escravidão. Voltando a nossa região, creio que nosso futuro será, pela nossa pobreza, antecipar os efeitos gerais narrados. Comemoraremos a implantação de indústrias ao preço de abrir mão de tributos, criaremos empregos abrindo mão de direitos trabalhistas, sucatearemos nosso sistema previdenciário de tal forma que uma sociedade eugenista comece a achar que uma vez inativo para o trabalho a morte lhe será um favor.

 

2.4 – Em seu país?

Creio que o mesmo cenário pode ser apresentado para o Brasil. De uma forma geral ou investimos em educação e possibilitamos uma revolução ética, uma revolução nas identidades sociais, ou teremos um racismo de Estado, uma eliminação de idosos, desempregados e desqualificados para o trabalho semi-escravo através de sistemas punitivos ou mais diretamente por processos industriais ou extermínios socialmente velados. Não vejo nenhuma esperança quanto à educação. Ela continuará sendo usada apenas como indústria de fornecimento de diplomas, uma espécie de assistencialismo educacional, sem possibilitar um real crescimento humano, até porque o trabalhador ideal do futuro é o escravo que se submeta a um serviço cada vez mais aviltante e menos compensador socialmente, e ainda o faça feliz, pois a alternativa seria o desemprego, sinônimo de morte social. Este quadro permitiria um barateamento da produção dos países ricos que poderiam tornar seus produtos mais competitivos pela inclusão de sub-mão-de-obra vindo de países pobres dispensando-se, assim, seus próprios trabalhadores, cujos direitos sociais encarecem a produção. A falta de mercado consumidor seria ainda suprida pela existência de uma massa consumidora relativamente grande difusa pelos vários países do mundo. Essa massa consumidora tenderá a reduzir-se de tal forma que o processo seja de concentração de renda e eliminação de pessoas, até um ponto de equilíbrio entre bolsões de produção de consumo militarmente fortes e uma imensa massa indigente alimentando minimamente a produção e em contínuo, processo de extermínio.

 

2.5 – Em sua empresa?

Trabalho numa universidade pública. Creio que os próximos dez anos serão de sabotagem constante de todo ensino público, até que não seja mais um entrave às instituições privadas. Muito provavelmente antes de dez anos todas as universidades públicas do país já terão sido privatizadas, não sem antes sofrerem um desgaste em sua imagem, redução contínua de seus recursos, normas e burocracias que a tornem inoperante e aviltamento de seus profissionais, todas etapas necessárias para seu barateamento. Uma vez privatizadas, o ensino será pautado não pela necessidade de desenvolver tecnologias e conhecimentos, mas pelo lucro, de tal forma que pesquisas que não visem lucro, tal qual desenvolvimento de remédios que curem doenças comuns a países pobres, serão dispensadas em favor de pesquisas que beneficiem consumidores ricos, tal qual cura da calvície, etc. Ricos terão cabelo, pobres terão morrido sem contemplar a cabeleira.

 

3.1 – Em termos demográficos, como analisa o seu país?

Demograficamente, o Brasil já teve uma base da pirâmide populacional bem mais significativa. Hoje essa base alcançou a idade produtiva em um país cuja economia não cresceu a ponto de gerar postos de trabalho para absorve-la. O resultado que a sobrevivência de parte da população depende de atividades informais e sub-empregos, o que gera uma pressão pela eliminação de direitos sociais, da malha social de proteção. Hoje a tendência é a de redução do número de nascimentos. Chegamos mesmo à conclusão de que existe gente demais no país, a economia não mais é vida como uma forma de tornar a vida dos homens melhor, mas a vida dos homens é que deve ser eliminada para tornar a economia melhor, já o fazemos pela redução do número de nascimentos e pela eliminação da pobreza por fome, raiva e bala. Quanto à minha instituição, até lá ela já não mais existirá.

 

3.2 – Fale sobre a motivação para o trabalho

Já que acredito que trabalho é um suplício, toda e qualquer motivação para o trabalho passam pelo medo e pela alienação. A motivação deve levar em conta as duas espécies de trabalhadores: os conscientes de sua situação e os que não têm consciência de sua situação. Os primeiros, tendo em vista que as pessoas em geral são completamente despreparadas para quase tudo na vida social, são e serão, certamente, uma minoria. Para elas o grande incentivo para o trabalho é o medo, a certeza de que o não trabalho é sinônimo de morte social. Já para o segundo grupo, muito maior, é possível incentiva-los da mesma forma pela qual vêm sendo incentivados desde o final do século XVIII até hoje, pela alienação, por fazer crer que o trabalho é bom, que o sistema é justo e que o futuro vale à pena. Nada difícil de se fazer tendo em vista os programas de televisão e a decadente educação.

 

3.3 – Já respondido nos itens anteriores.

 

3.4 – Já respondido nos itens anteriores.

 

3.5 – Em relação à educação, o que mudará nos próximos anos?

Quanto à educação, creio que a maior parte das considerações já foram feitas. De uma forma geral, apesar de achar melhor a morte do que a viver num mundo assim, creio que toda educação será governada pelo seu valor econômico, pelo seu potencial de lucro, de tal forma que a aproximação entre academia e empresas se dará de forma que a produção intelectual submeter-se-á às demandas das empresas. Este quadro será possível pela total ausência de políticas públicas em educação, fato do qual já não estamos tão distantes assim.

Tecendo mais algumas considerações qualitativas sobre a educação, creio que, de uma forma geral, um privilégio da titulação em detrimento da educação continuará sendo a tônica da minguada política de educação, isso persistirá até que a empresa substitua definitivamente o Estado na condução de políticas de educação. Quando tal ocorrer, provavelmente o ensino à distância já terá dominado os processos educacionais, pois pelo seu baixo custo, permitirá diplomar um número cada vez maior de analfabetos funcionais. Claro que os processo de educação à distância surtirão efeitos em relação a alguns poucos que realmente, por força de seu próprio esforço, vocação para o aprendizado ou curiosidade obsessiva, realmente farão progresso intelectual. Serão os poucos necessários para o comando dos processos produtivos e manutenção do ensino à distância (professores).

 

3.6 – Em termos de produção, quais são as mudanças que ocorrerão?

Já que a tecnologia define o ritmo das mudanças e produção real de riquezas, o capital intelectual tenderá a ser valorizado, porém não todo e qualquer capital intelectual, mas somente aquele que, nos termos da produção, podem ser convertidos em lucro. Conhecimentos que visem tão somente a melhoria da qualidade de vida ou melhoria do humano, provavelmente continuarão a ter o mesmo valor que lhes é atribuído hoje: quase nenhum.

3 Respostas para “O dia em que chegaremos “lá””

  1. Paul Hugo Weberbauer disse

    Sei que vai parecer sacanagem, mas depois de descobrir e ler esses comentário não deu para segurar, então lá vai, um oferecimento Martha Suplicy:

    “Relaxa e Goza”

  2. [...] de direito aqui na Ufes, mantém um blog. A última postagem que ele publicou foi sobre uma entrevista dada cujas “respostas comporiam um relatório de pesquisa do PNUD – Programa das Nações [...]

  3. [...] de direito aqui na Ufes, mantém um blog. A última postagem que ele publicou foi sobre uma entrevista dada cujas “respostas comporiam um relatório de pesquisa do PNUD – Programa das Nações [...]

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