Razão Impura

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Balinhas, tragédias e cafetões

Publicado por Pompeu em Agosto 22, 2007

Fui dar uma palestra em João Pessoa. Cidade bonita e calma, gente simpática e alegre, horas a fio em aviões e aeroportos tediosos. Tudo muito normal. Fui de TAM, poucos dias depois do acidente em São Paulo. Nos vôos da TAM sempre servem balinhas, de chocolate, caramelo ou cereja, sempre da mesma marca. Junto com o tapate vermelho à entrada do avião e do piloto dando boas vindas, é um dos diferenciais da TAM. Fora isso é tudo igual à sua principal concorrente, a GOL: o espaço entre os assentos feito sob medida para crianças e anões, poltronas que reclinam de 90 para 93 graus e um tal de lanchinho que serve mais para dar o que fazer aos comissários durante o vôo, uma espécie de sadismo patronal cumulado com inutilidade nutricional. Fora isso, só o tédio. Resta-me prestar atenção aos detalhes. Sou naturalmente detalhista, mas o tédio acentua essa característica. O detalhe da balinha sempre me intrigou. Por que a TAM oferece balinhas?

Deve ter algum motivo. Sórdido, como convém a toda grande empresa que se preze. Deve ser uma forma de fazer você preferir a TAM a qualquer outra concorrente, talvez uma forma de disparar algum mecanismo inconsciente que o leve a associar, lá nas profundezas do “id”, passagens da TAM às delícias do açúcar. Já posso até imaginar um consultor psicológico, orientando altos escalões da empresa a como ganhar mais dinheiro apelando para mensagens subliminares e daí o trunfo: balinhas! Doces, inocentes, simpáticas. Muito mais barato do que investimentos reais em conforto. Meras balinhas, genial! Algum executivo pode ter dito: “mas e o papel das balinhas? Os aviões não têm mais cinzeiros e tampuco há espaço para colocar uma lixeira para cada passageiro (mal tem espaço para o próprio passageiro). Recolher os papeizinhos leva tempo e vai acabar atrasando os vôos”. “como assim recolher os papeizinhos?” deve ter retrucado outro alto executivo. Eles sabem que passageiro é tudo igual, que ele não tá nem aí se o avião é um chiqueiro ou limpo como uma sala de cirurgia (antes da cirurgia), o que interessa é o preço da passagem e… balinhas. Chegar inteiro ajuda, mas nada tão fundamental quanto balinhas, é isso que importa. Balinhas só podem ser uma espécie de cosmético da alma.

Já foi o tempo em que havia algum glamour em viajar de avião. A ponte aérea Rio São Paulo, com seus Constellations, vinho sevido à bordo e comissárias sexy-simbols dos anos 60 que o digam. Comia-se relativamente bem, aliás, comia-se em aviões (barrinha de cereal não se encaixa bem no meu conceito de comida), as potronas eram macias e espaçosas. Dava prá dobrar as pernas sem precisar da ajuda dos bombeiros para voltar ao normal e os joelhos do passageiro da poltrona de trás jamais eram sentidos, salvo no caso de desentendimentos violentos a bordo, coisa que, felizmente, raramente acontecia; e olha que serviam bebidas alcoólicas durante o vôo! O que mudou? Numa palavra: concorrência. A tal lei de mercado. A aviação era muito regulamentada, diziam. O espaço entre as poltronas, o serviço de bordo, tudo isso era uma obrigação legal imposta pelo Estado para aqueles que quisessem explorar o espaço aéreo. O glamour era mantido por um punhado de normas que a partir dos anos 90 foram consideradas excessivas. Elas impediam que a aviação se modernizasse. Era a tal da liberdade de mercado, o pensamento liberal de que quando o Estado mete a mão só atrapalha, que o bom mesmo é a auto-regulação, uma tal mão invisível que regulamenta tudo, que faz com que tudo seja melhor. E assim se fez, meteram a mão invisível no mercado de aviação. Acabou a regulamentação, aumentou a competição e, como diziam, a competição torna tudo melhor. Foi assim que vieram as barrinhas de cereal, muito melhores do que salmão defumado e vinho, assim como as poltronas que exigem horas de ioga e alongamento para enfrentar longas viagens, sem dúvida melhores do que aquelas em que se conseguia até dormir, pois, acreditem, reclinavam! É claro que tudo isso tem um preço, para os passageiros, as passagens baratearam, para as companhias, com mais gente podendo voar, os lucros aumentaram. Essa promessa foi cumprida. Só não cumpriram a tal promessa de qualidade da tal mão invisível. Ela barateia, mas só. Não melhora nada, ao contrário, torna tudo barato porque sem qualidade. Quanto mais barato, melhor. Quanto menos custo, melhor. Ninguém pensou no fato de que, talvez, com maiores lucros, as empresas pudessem investir um pouco mais em conforto e segurança? Claro que sim: balinhas. São seguras e confortam o paladar.

Acha absurda essa análise mercadológica e institucional baseada apenas em balinhas? Pois aí vai mais uma. Vejamos o quanto balinhas nos dizem sobre as pessoas. Ao meu lado, no vôo de Brasília para João Pessoa (segundo vôo da jornada), sentou-se um cara engravatado. Jeito de dotô, idade de dotô, falava que nem dotô, e muita gente que embarcava no avião o cumprimentava e o chamava de dotô. Não sei se era deputado, senador, empresário ou advogado importante na Paraíba, só sei que não era pobre, não era classe média. Era dominante, dotô. Embarcados, lá vem as balinhas. Comissária sorridente, boa-tarde automático, sem olhar de verdade prá ninguém e tome balinhas. Desde o início do corredor eu presto atenção no cesto de balinhas. Tédio é assim mesmo. Ela se aproxima, minha vez vai chegando e a dúvida surge: encaro ou não as balinhas? Encaro. Peguei uma, escolhida com razoável paciência. De chocolate, minha preferida. A comissária estende o cesto para o dotô, sentado à janela, e ele ataca. Impiedosamente, amontoalhoa um punhado de balas em sua mão que só agora eu reparava ser enorme. Levou quase todo o cesto de balinhas. Colocou-as na pasta, daquelas de dotô. Só percebi o olhar da comissária quando ela recolheu o cesto, quase vazio, triste, dilapidado. Constrangida, voltou para reabastecê-lo. Que tipo de gente mete a mão com tanta voracidade em balinhas? Tudo bem que é de graça, mas você não acha esqisito? Não parece coisa de faminto? Mas faminto não era, ele era dotô, então a mão grande só pode ser cobiça. O prazer da mão grande, de reter balinhas aos montes, de apropriar-se de todo o disponível, antes que alguém, que algum outro mão grande o faça.

Freud que se cuide, dê-me balinhas que eu lhe direi quem és. Se meu método estiver certo, se os detalhes falam alto, então fica mais fácil entender a tragédia brasileira, não só a do fatídico acidente do vôo da TAM em São Paulo, mas toda a tagédia da vida pública brasileira. Com dominantes assim, só nos resta um consolo: balinhas. Agora eu entendo como uma tragédia ocorrida com um avião que pousa numa pista curta, escorregadia, em dia de chuva, sem reverso, sem spoilers, sem área de escape, que a infraero dizia segura enquanto aviões bailavam numa espécie de Holliday on Ice macabro, tendo voado num espaço aéreo controlado por profissionais mal-pagos e em regime de aquartelamento, que deixaram dois aviões bater porque o rádio é surdo-mudo e o radar é cego, acaba com o dono de um puteiro preso! Prender o cafetão é a nossa balinha.

5 Respostas para “Balinhas, tragédias e cafetões”

  1. David disse

    Só me senti reconfortado quando li que a “balinha” era, afinal, a de chocolate. A de caramelo (ou é café, não sei que diabos é aquilo) deixa uma sede que só é saciada quando a comissária traz um copo d’água.

    E não se engane! Lá fora é ainda pior. Digo “pior” como em “banheiro oficialmente sem água e sabão: use toalhas umedecidas”.

    Legal disclaimer: Water is not provided on this flight. AA will not be held responsible for diseases related to bad hygiene habits.

  2. Valmir França Viana - EMES disse

    Pompeu,
    vc é incrível, consegue extrair de uma “balinha” aparentemente infensiva, um grande questionamento sobre a “universalização” do lucro. Dos dez itens elencados pela TAM como prioridade, o lucro aparece em primeiro lugar, mas vc acha que ela esqueceu do passageiro, claro que não, ele aparece em sexto lugar. Não é fantástico. Como diria os saudosistas, éramos felizes e não sabia. Mas, vamos tocar a vida. Foi muito bom ter vc como professor na EMES. Serei frequentar assíduo da sua página na internet. Um forte abraço. Valmir – 8182-0007.

  3. Valmir França Viana - EMES disse

    CORREÇÃO DO E-MAIL ANTERIOR.

    Pompeu,
    vc é incrível, consegue extrair de uma simples “balinha”, aparentemente inofensiva, um grande questionamento sobre a “priorização” do lucro, sobre os demais valores, como conforto, pontualidade, bem estar, alimentação… ou seja, até a própria vida. Dos dez itens elencados pela TAM como prioridade, o lucro aparece em primeiro lugar, mas vc acha que a empresa esqueceu do passageiro, claro que não, ele aparece em sexto lugar. Não é fantástico. Como diria os saudosistas, éramos felizes e não sabiamos. Mas, vamos tocar a vida. Foi muito bom ter vc como professor na EMES. Serei frequentador assíduo da sua página na internet. Um forte abraço. Valmir – 8182-0007.

  4. Henrique David disse

    Conhecido o site. E aprovado… Lê-lo é relembrar suas aulas. Grande abraço.

  5. Ronaldo disse

    O referido “dotor” provavelmente é um frustado em época de Cosme e Damião…

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