A tragédia da existência ou como a Wikipédia leva à metafísica
Publicado por Pompeu em Outubro 1, 2007
Monólogo em 4 atos. Cenário vazio.
Intróito:
Um grande amigo fundou a Escola Pessimista de Peruíbe, escola da qual, orgulhosamente, faço parte como colaborador distante. A escola foi o nome dado a um grupo de professores que comungam das mesmas crenças (ou falta delas). É como o nome dado a um time de futebol ou à turma do boteco. O fato é que ele, certo da existência do grupo do qual faz parte, tentou registrar o verbete “Escola Pessimista de Peruíbe” na Wikipédia. Foi denunciado como inexistente. A partir daí uma intensa votação no site começou para provar a existência ou não da EPP. A escola foi vencida. A Wikipédia declarou-a inexistente. A certeza de meu amigo quanto à existência própria e das coisas da qual faz parte ou que tomam parte em sua vida nada pôde contra a Wikipédia. Isto nos traz a pergunta: o que nos faz existir?
Ato 1: Existo por convicção.
“Penso, logo, existo!”. Sempre me perguntei por que não: penso, logo, penso que existo? O fato é que a famosa frase cartesiana é uma afirmação, uma convicção inatacável, mesmo pela Wikipédia da própria existência. Sua trajetória é a seguinte: 1- duvidarei de tudo. 2 – em podendo duvidar de tudo, só não posso duvidar de que duvido, ou a dúvida não pode duvidar de si mesma. 3 – se há a dúvida, então há algo que duvida. 4 – Este algo que duvida sou eu. Olá! Até aqui, tudo bem, a existência é uma inferência lógica. Voltemos, então à Wikipédia. Se alguém colocou a EPP no site, é porque alguém existe, assim como também existe o que duvida da existência. Com que nível de sanidade alguém dialoga com algo para dizer a esse algo que ele não existe? Se o verbete foi colocado, se há alguém por detrás dele, então ele existe! Ou não? Bem, no caso, Descartes falava da existência como convicção íntima, de um existir para mim mesmo, incluída aí a pretensão de que a certeza da minha existência fosse convertida em evidência da mesma para outro que me olhasse. Se existo para mim, também existo da mesma forma para outro. Mas o problema aqui é que o outro não reconhece minha existência, a obviedade não funciona, a lógica de minha existência não funciona com a Wikipédia. A existência para Descartes é convicção íntima, mas como esperar que um não eu, que um outro, tenha alguma convicção íntima de minha existência? Ele pode apenas duvidar, como a Wikipédia. Chegamos a um dilema: ou a existência é uma questão de convicção íntima, ou de reconhecimento. Ou existo porque disto tenho certeza ou existo porque alguém disto tem certeza. Se a primeira hipótese bastasse, a Wikipédia aceitaria a EPP, como não aceitou, a existência depende de reconhecimento e, portanto, Descartes não tem mais nada a nos dizer.
Ato 2: Existimos aos olhos dos outros.
Se nossa existência depende dos olhares alheios, depende de existirmos para os outros, então a forma como existo também deverá obedecer a esse olhar. A fome como me percebem existente é a forma que eu tenho. Credo! Como posso olhar para mim mesmo se a forma como existo depende de como me vêem e eu não sei como me vêem. Só sei como eu me vejo, se é que eu existo. Para que eu me veja ou mesmo para que eu comprove a minha existência, seria preciso que eu me visse como outra pessoa me vê. Seria preciso que algo em mim, diferente de mim mesmo me visse e depois contasse para mim o que eu sou para que, enfim, eu pudesse existir para mim mesmo. Mas se eu nem mesmo resolvi o problema da minha existência, como resolver o problema da existência do outro em mim que me permite existir? Platão encarou um problema semelhante. Como pode a alma, que é aquilo que conhece, conhecer a si mesma. O dilema fica melhor explicado pela metáfora do olho. Como pode o olho olhar a si mesmo? Ele só o pode olhar sua imagem num espelho, mas nunca a si mesmo, sua imagem não é ele, é seu duplo. Será que isso quer dizer que um ser que existe não pode saber que existe? Se ele não sabe que existe, como pode saber que as coisas diferentes dele existem? Como posso ter certeza de que este computador, a EPP, a Wikipédia e até mesmo eu existimos? A condição para que eu exista, portanto, é ser imagem de mim mesmo, é existir como imagem, como duplo de mim mesmo. Mas isso não é o mesmo que não existir? Quer dizer, eu não existo, sou apenas uma imagem de mim mesmo. Socorro, isso é Matrix! Tudo é ilusão. Não, a hipótese da existência pelo olhar do outro só me faz crer na minha inexistência. Não serve também, vamos pra outra.
Ato 3: Belisca-me.
“Me belisca pra ver se eu não estou sonhando” (eu sei que não se começa frase com preposição, mas esse jeito de falar existe, ou não?). Quem nunca disse isso? A dor do beliscão seria a prova da existência de um eu, acordado, e lúcido. A prova da existência não seria racional, mas sensível. Não se sabe que existe, apenas sente-se a existência. O beliscão é a resposta derradeira para toda metafísica. Mas e quando não sinto nada, deixo de existir? E se existo porque sinto, então a forma de minha existência é sensível apenas e não material? Sentir a minha perna é garantia da existência dela ou a sensação só garante a ela mesma. Quer dizer, eu sinto, então só posso garantir que sinto, não que existo materialmente? Se a prova for a sensibilidade, então ela só prova a ela mesma. Pensar na própria existência, como o faço agora é angustiante, então é isso que eu sou, angústia? E quando mudo de sensação, sou outro, sou outro sentir? Se sou cada uma das minhas sensações, então eu não sou nada mesmo além de um fluxo de sensações mais ou menos inconstantes e aleatórias. E o pior de tudo, isso quer dizer que para que a EPP exista na Wikipédia seria preciso fazer-se sentir para aqueles que não a querem lá. Seria preciso beliscá-los.
Ato 4: Conclusão trágica:
Peraí, mas isso não nos remete aos dois dilemas iniciais? Existo porque sinto eu mesmo, convicção sensível? Ou existo porque alguém me sente? Meu Deus! É um círculo vicioso! A existência fica entre eu e os outros e não há saída. Alguém, alguém! Preciso de um beliscão!… Será que eu posso beliscar a mim mesmo e, assim, existir para mim mesmo na sensação do beliscão dado pelo não-eu beliscador que é condição da minha própria existência? Mas se não existo, como posso beliscar-me? Seria uma ilusão de beliscão, não a prova da existência. Talvez seja isso, é, isso mesmo, eu não existo, a Wikipédia não existe, este computador não existe, você que lê não existe. Que é isso! O computador está sumindo. Meu braço! Não vejo meu braço! Não posso beliscar-me também. Socorro! Socorro…. Não consigo mais tec…
Pano rápido.
Esta entrada foi publicada em Outubro 1, 2007 às 9:37 pm e é arquivado em Filosofia, Quotidiano. Tagged: Berkley, consciência, Descartes, escola pessimista de peruíbe, existência, fenomenologia, Hume, humor, imagem, Metafísica, sensibilidade, sociedade, wikipedia. Você pode seguir qualquer respostas para esta entrada através de RSS 2.0 feed. Você pode deixe uma resposta, ou trackback do seu próprio site.
Juarez disse
Se alguém colocou a EPP no site é porque alguém existe, sim, claro, mas questionar a sanidade de quem dialogou com o verbete para dizer que ele não existe foi um golpe baixo. A linguagem aparece como (para não dizer “é”) um sistema de representações. Ninguém dialogou com a EPP para dizer que ela não existe; dialogaram com o verbete contido na Wikipedia para dizer que o objeto representado por ele não existe: o que é perfeitamente compreensível, se supormos que quem o fez tomo-o (o verbete wikipediano) como uma piada. A primeira vista, essa “aparece como” a impressão que se teria. A existência não é questão de convicção nem de reconhecimento. A existência é a existência, é o puro ato de existir, as duas questões apontadas por você dizem respeito ao reconhecimento da existência (a partir da convicção ou do reconhecimento alheio ou do outro). Ainda que não reconhecesse minha existência, existiria, mas não para mim, o que no fim daria no mesmo, porque se não há ninguém para reconhecer, as coisas podem estar lá ainda (é só imaginar toda a vida do universo morrendo). Claro que isso parte do pressuposto de se imaginar alguma existência para além da minha. Pode ser que só eu ou algo exista, e que o restante seja produto da consciência desse mesmo algo. Nesse caso, o fim do algo é o fim de tudo. Não podemos ter certeza da existência exterior ou interior, mas podemos dizer o que não é: o nada. Externamente ou internamente, algo existe. Retomando, o convicto reconhece a existência dele mesmo, o que pode ser falso, dada a possibilidade de ser ilusório o seu eu e sua forma; aquele que reconhece a existência do outro reconhece outra coisa que pode ser derivada duma simples ilusão. Dessa maneira, de qualquer forma, nenhuma hipótese bastará para reconhecer-se a existência de qualquer coisa que não seja algo indeterminado. Talvez para os outros, existamos para os outros; isso se os outros existirem. Existem para mim como imagem, como eu mesmo existo para mim como imagem; e persistimos na mesma: existe algo. O que? Algo, porra. As sensações existem, sim, mas como aparência. Toda essa conversa de existir pressupõe algo que não mude, o problema é que tudo aparece e figura, o que não muda é essa figuração. O imutável é a mutabilidade. Paradoxo. O paradoxo é. A imagem é NOSSO algo, talvez não o algo mesmo em sua imutabilidade (embora possa o ser), mas na falta de um melhor, fico com esse mesmo. Quero ver qual dentista vai convencer o paciente de que a dor causada pela broca não existe. Com isso, concluímos que a discussão dessas coisas é inútil, a não ser para chegarmos à conslusão de sua inutilidade. O paradoxo, mais uma vez, volta a ser.
Isso tudo que eu escrevi “aparece para mim como” muito sério. Não foi minha intenção fazer uma piada…
Cicero Araujo disse
Sim, muito interessante!
O fato deu já ter lido a respeito da Escola Pessimista de Peruíbe em artigo, e a presença de seus representantes, que se apresentam como EPP, nos congressos de filosofia, administração e comunicação fazem sua existência perecer perceptivel. Clóvis de Barros, seu digno representante, que o diga.
Puxa… Esta da Wikipédia ter caçado este movimento filosófico realmente é um absurdo. Maior do que os absurdos registrados em seus verbetes. Meus alunos me entregam seu lixo, em forma de trabalho, todo o santo semestre. Não sei se dou zero pela simples cópia do site, ou se dou zero pelo fato do aluno ser tão ignorante que não viu que a Wikipédia escreve bobagens sobre os assuntos relacionados. Creio que a Desciclopédia, em muitas ocasiões, trás mais dados culturais relevantes as coisas do mundo do que a “versão correta do mundo” proposta pela Wikipédia.
Como um bando de ignorantes reconheceria a existência de uma escola filosófica em surgimento? Caro Pompeu, acorde…
“Tudo o que não existe para se recortar da internet e colar não existe!”
Pare com esta bobagem de cógito cartesiano.
Veja se isso convence o idiota acima de que algo existe fora do mundinho dele.
BEM VINDO AO MUNDO PÓS-MODERNO! (Ou retro-moderno, como só a mim se apresenta este fenômeno)
artes disse
Percebi ter cometido um erro derivado de um lapso na digitação, como se pode facilmente notar: onde deveria escrever “conclusão”, escrevi “conslusão”. Por outro lado, o professor Cicero cometeu um erro tipicamente oriundo da ignorância; sendo tão inteligente a ponto de não saber que “trás” é preposição/advérbio e que o verbo por ele usado se escreve “traz”. Em se tratando de alguém que se considera em posição de chamar alguém de idiota, ainda mais a partir de um singelo texto, é necessário lembrar ser a ortografia uma matéria do ensino fundamental. O que mais o sr. escreve, PROFESSOR Cicero? Traser?
Mas para não me chamarem de formalista, pedirei ao sr., professor Cicero, para TRAZER até este blog as suas reflexões ontológicas retro-modernas. Afinal, com relação a este, tema central do post, seus comentários e nada foram rigorosamente a mesma coisa.
Um grande abraço,
Juarez.
Cicero Araujo disse
Peço perdão a sociedade pelo erro de português!
Não me condenem de imediato, mas a ignorância de alunos e da intenet (principalmente dos verbetes escritos na Wiki) entra no meu corpo por osmose. É bom para de usar a internet e usar me tempo para voltar a boa literatura. Tentar me re-civilizar.
Quanto ao retro-moderno, tomo as palavras do moderno Hobbes:
“Lê-te a ti mesmo”
artes disse
Rapaz, a coisa está preta! É realmente melhor você parar de usar a internet. “Peço perdão a sociedade” e “voltar a boa literatura”… Ignorou a crase duas vezes, hahahaha.
Já que citou Hobbes, legitimo o meu pedido com base numa sentença do próprio:
“Não há um só que comece a raciocinar com definições ou explicações dos nomes que irá usar(…) À falta de método atribuo a primeira causa das conclusões absurdas”.
Por curiosidade, onde você leciona?
Seu humilde e obediente servidor,
Juarez.
Gustavo disse
Opa. Fugimos da proposta filosófica do texto, desde o segundo comentário. Acho que não ficou claro que a wikipedia era um mero pretexto pra iniciar uma discussão filosófica e metafísica acerca do existir, e não debater a “existência ou não” de qualidade do site. Mas se é pra partir pro pessoal, procurem “Ratinho” no wikipedia. Se ele existir realmente, talvez ajude a resolver os problemas.
Quanto aos verbetes dos internautas, tem um que se encaixa bem no comentário acima: owned.
artes disse
Uia. A coisa fugiu um pouco da proposta inicial, mas e daí? E olha que estou tentando em cada comentário trazer a discussão de volta à baila, implorando por definições ou reflexões ontológicas. Bem menos fez você pela discussão, Gustavo.