O Caveirão, os traficantes e o professor da oitava série
Publicado por Pompeu em Outubro 8, 2007
Certas coisas só acontecem com certas pessoas. Nunca compreendi o porquê, mas acredito no fenômeno. A história que vou contar é real, apesar de não parecer. Minha prova da veracidade é o fato de certas coisas só acontecerem com certas pessoas. Aconteceu com Dalto. Se você conhecesse o Dalto acreditaria na história dele. Ele subiu e desceu a favela da Rocinha durante um tiroteio entre o BOPE e traficantes, com direito a Caveirão e tudo mais, para pegar um trabalho de uma aluna da oitava série. Em tempo de cinema verdade, sua história daria um filme. Dalto seria nosso capitão Nascimento.
Para entender a história, é preciso conhecer um pouco mais o Dalto. Ele era professor de matemática da rede pública estadual do Rio de Janeiro. Lecionava na Rocinha não só matemática, mas história e português também, não que tenha sido contratado para isso ou mesmo que soubesse a fundo tais matérias, mas porque faltavam professores. Muitos abandonaram a escola e o emprego por medo dos constantes tiroteios. A Rocinha estava sendo disputada por traficantes rivais. Dalto trabalhava todo dia num campo de batalha por R$ 800,00 por mês, dinheiro que não pagava o transporte e o almoço fora todos os dias. Ele pagava para trabalhar. Mesmo assim teimava em continuar lecionando. Ele acreditava nesse negócio de que ensino é sacerdócio e não podia deixar os alunos na mão. Dalto era querido pelos alunos. Ele os conhecia pelo nome, conhecia suas histórias. Era quase um pai. Um dia ele notou a falta constante de uma das melhores alunas da oitava série. Preocupou-se. Investigou e descobriu o motivo: síndrome de pânico (pobre também fica estressado). Ela faltou à prova final, o que a reprovaria. Dalto não achou justo e tentou ajudar. Ele não a aprovaria gratuitamente, seria preciso uma avaliação (Dalto acredita em avaliação). Ela faria um trabalho e, como não podia sair de casa, ele o pegaria.
No último dia para entrega das notas Dalto vai para a Rocinha. A pauta já está preenchida, trabalhos corrigidos e notas lançadas, falta só a nota da melhor aluna da oitava série. Iria direto para a casa dela, pegaria o trabalho, corrigiria na escola, lançaria a nota e voltaria pra casa mais cedo. Tudo bem planejado, mas certas coisas só acontecem com certas pessoas. Chegando à Rocinha, Dalto ouviu tiros e viu gente correndo meio abaixada. O motorista do ônibus ficou com medo e não parou no ponto. Teve de saltar mais longe, bem ao lado dos carros do BOPE. “O que é que está havendo?” Perguntou o óbvio e ouviu o óbvio de um soldado do BOPE: “tiroteio”. “Não dá pra subir não?”. “Se quiser levar um tiro…”. Dalto aproximou-se da entrada. Havia mais soldados e o Caveirão, o blindado estiloso do BOPE. “E aí companheiro, como é que ta lá em cima?”. Dalto chama todo mundo de companheiro. “Ta feio, pau tá comendo”. “Eu preciso subir”. “Melhor esperar até acalmar”. “Quanto tempo demora?”. “Só Deus sabe”. Dalto é ateu, mas ainda que não fosse, sabia que Deus abandonou aquele lugar há muito tempo. “Não tem jeito? Olha, eu sou professor do colégio ali do outro lado…”. Puxou a carteira de professor do Estado. “…e preciso ir até o alto do morro pra pegar um trabalho de uma aluna e hoje é o último dia”. “Não dá pra ir mais tarde?”. “Não dá, mais tarde eu dou aula particular na Tijuca”. “Fala com o tenente.”. Dalto falou com o tenente. Mostrou a carteira e contou toda a história. Não se sabe se por pena, pelo inusitado da situação ou se, de fato, comoveu-se com o esforço, o fato é que o tenente mandou um grupo entrar no Caveirão e o BOPE partiu morro acima dando carona ao Dalto. Atravessaram a linha de tiro ouvindo alguns estalos na lataria. “Já atravessamos a linha de tiro, daqui pra frente é mais seguro”. Era mesmo, Dalto desceu agradecido do Caveirão e alcanço a pé a casa da aluna, no alto do morro. Pegou o trabalho e descansou enquanto contava pra ela a saga da subida e descrevia a situação morro abaixo (assunto ótimo quando se está em meio a um tiroteio conversando com alguém que sofre de síndrome de pânico, mas Dalto é assim mesmo).
Faltava a volta. Mesmo caminho até o início da linha de tiro, só que sem Caveirão à espera. Sem o táxi blindado a coisa se complicaria. Encontrou outro grupo de policiais do BOPE que atiravam para o alto do morro. Precisava atravessar um verdadeiro corredor de balas para chegar ao pé do morro. “Oficial, dá pá parar de atirar rapidinho para eu passar?”. Dalto não sabe distinguir oficiais, só sabe que o cara com quem falou dava ordens pros outros. “Como é que é?”. Quem acreditaria num pedido desses? Dalto mostrou a carteira e o trabalho e contou mais uma vez a história toda. “Eu posso até para de atirar, mas e eles lá em cima? Se eles não pararem também não vai adiantar nada”. O irmão do dono do morro era aluno da escola. Gostava do Dalto. Pegou o celular e ligou pra ele. Contou a história de novo e pediu o armistício. Deu sorte, o garoto estava ao lado do irmão, provavelmente atirando contra os policiais. Ele topou. “Beleza, mas passa batido porque assim que você dobrar a esquina o coro come de novo.”. Comunicou o cessar-fogo ao oficial. O fogo cessou e ele atravessou, mal dobrou a esquina e a guerra particular voltou ao normal. Chegou a escola sem maiores percalços, corrigiu o trabalho e lançou a nota. O trabalho estava bom.
Dalto não leciona mais na Rocinha. Deixou o emprego porque não conseguia mais dinheiro para trabalhar. A coisa apertou. Ficou triste. A escola perdeu, com isso, um professor de matemática, português e história que conhecia os alunos pelo nome, importava-se com eles e arriscava a vida para cumprir suas obrigações de professor. Mas o Estado não dá valor nenhum pra isso, quer dizer, dá o valor mensal de oitocentos reais e ainda desconta INSS, CPMF e contribuição sindical. Não tenho notícia de outro episódio em que um trabalho de oitava série tenha sido mais importante do que narcotráfico e operações policiais da tropa de elite, nem mesmo sei se essa história que Dalto me contou é verdadeira, só sei que no dia em que a sociedade e o Estado considerarem um trabalho de oitava série mais importante do que narcotráfico e operações policiais, haverá menos narcotráfico e ações policiais.
Raphael Sodre disse
O dia em que todo mundo (todo mundo mesmo) estiver em escolas de qualidade e universidades, os estudantes vão ser os marginalizados (provavelmente criminosos). Isso porque não há emprego, renda e dignidade humana para todos. Esses são “bens” escassos”.
Por isso que a solução NÃO é a educação. A não ser na cabeça do Cristovam Buarque…
Gustavo disse
tá, então a solução é…?
jeuli disse
a solução é invadir a reitoria e quebrar tudo
Jameson Costa disse
Tá, então a solução é?
A solução e educação sim!!! Viva Cristovam Buarque e poucos mais de 3 milhões de brasileiros que votaram nele e ainda acreditam num país melhor. Viva a revolução dos livros…No dia que eu não acreditar mais na educação eu mudo de profissão.
Samuel Braga. disse
A solução mais rápida para a comoção governamental seria os direitos iguais para todas as pessoas, enclusive os politicos.
Exemplo: A familia dos governantes deverão utilizar a saúde publica, segurança publica, transporte publico, educação publica, ou seja, tudo que o governo tem para oferecer de melhor para a sociedade eles também deveriam usar. Mas é claro que os ilustres possuem muitas vantagens e eles é quem fazem as regras isso é impossivel de acontecer,mas seria muito bom. Lembrando que a Educação não é tudo e sim a base de tudo e o que pode mudar a situação do pais é a saida de capitalistas e a entrada de comunistas, verdadeiros comunistas.