Razão Impura

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O bonde do Foucault e os anti-iluministas

Publicado por Pompeu em Novembro 14, 2007

Reinaldo Azevedo escreveu em sua coluna da revista Veja de 10 de outubro artigo intitulado “Capitão Nascimento Bate no Bonde do Foucault”. Critica o bombardeio ideológico sofrido pelos diretores do filme Tropa de Elite, acusados de fascismo. Tal crítica seria um cerco realizado pelo “bonde do Foucault”, este seria composto pelos “donos dos morros dos cadernos de cultura dos jornais, investidos do papel de aiatolás das utopias permitidas”. Diz isso porque considera Foucault como o autor eu em Vigiar e Punir “discorre sobre a evolução da legislação penal ao longo da história e caracteriza, de modo muito crítico, os métodos coercitivos e punitivos do estado”. Ainda afirma que Foucault seria um picareta porque “fica a um passo de sugerir que o castigo físico é preferível às formas que entende veladas de repressão postas em prática pelo estado moderno. Lixo.”. Não gosto de contendas intelectuais que misturam as idéias com ofensas ao interlocutor, mas, sinceramente, a leitura que Reinaldo Azevedo faz de Foucault é tão picareta quanto o pastiche da aula sobre Foucault que aparece no filme.

Nem tudo, porém, é picaretagem intelectual no texto de Reinaldo Azevedo. Ele tem razão em apontar que o filme sofre uma perseguição intelectual, o mesmo ocorre quando lembra que o filme é entretenimento e não aula de sociologia. Mas pára por aí. O resto é ataques aos críticos do filem mais ou menos nos mesmos tons que os críticos atacam o filme. É combate fogo contra fogo. Ele reduz a crítica a visões marxistóides (refiro-me aos marxistas que nunca leram nada de Marx), na qual a polícia é apenas uma força bruta organizada pelo capital contra a gentalha proletária alienada. E os chama de bonde do Foucault, como se ele fosse minimamente marxista. Foucault e Marx são dois pensadores distintos, de épocas diferentes, que analisam realidades diferentes, a partir de contextos diferentes e que chegam a conclusões diferentes sobre os problemas do mundo e sua solução. Em suma, Foucault não é Marx e nem marxista. Colocá-los no mesmo clube ou, vá lá, bonde, é fazer tábua rasa dos dois.

Marxistas odiavam Foucault pelo fato de suas análises das relações de poder não resumirem a “lógica” do seu funcionamento a conseqüências das formas de produção. Para Foucault o poder não é uma conseqüência da luta entre capital e trabalho na qual burgueses esclarecidos, perversos e muito bem articulados, mantém sob comando uma massa proletária alienada (porque não percebe a própria dominação) e desarticulada (porque não conseguem se organizar para reverter ou, ao menos, empatar o jogo do poder). Seu enfoque não é a luta social entre esclarecidos de um lado e idiotas alienados do outro. As relações de poder sequer pressupõem uma inteligência consciente qualquer. Ele não é fruto de uma mente, seja ela burguesa ou não, que escolha que as coisas funcionem de tal ou qual maneira. Foucault nega a existência da tal burguesia como sendo essa força misteriosa a comandar tudo e todos. Para os marxistóides de plantão, isso é reacionarismo e alienação.

Foucault fala em sua obra de relações de poder. Destaco relações, pois poder não é uma coisa que se tenha ou não, mas uma ação de pessoas sobre pessoas, uma prática, um fazer do homem sobre o homem. Ele analisa tais práticas. Não as propões, apenas desnuda, mais ou menos como os autores do filme fizeram com relação a polícia carioca e o jogo da violência em torno do narcotráfico. Para isso, ele mostra a articulação entre saber e poder (não no sentido de que quanto mais alguém sabe alguma coisa, mais poder tem sobre os que não sabem tal coisa), considerando como saberes o emaranhado de idéias, discursos, conceitos, grandes narrativas, enfim, a produção intelectual compartilhada de um determinado povo em determinado momento de sua história. Estes funcionariam como condições de possibilidade para que práticas específicas de poder sejam realizadas.

Ele não se perguntava qual sistema punitivo seria pior, se os castigos físicos ou a prisão, mas antes, sua preocupação era saber como pode fazer sentido para uma determinada sociedade punir por meio de castigos físicos ou pela morte violenta e noutro momento estas mesmas práticas serem consideradas bárbaras. O que mudou de uma para outra? Quais saberes mudaram? Foucault os descreve, só isso. Atribuir a Foucault, como faz Reinaldo Azevedo, ficar a “um passo de sugerir que o castigo físico é preferível às formas que entende veladas de repressão postas em prática pelo estado moderno” é encontrar na obra de Foucault algo que ele nunca escreveu ou mesmo insinuou. O que Reinaldo descreve com isso, não são as idéias de Foucault, mas o que ele “sentiu” ao lê-las. Trata-se de uma impressão, não de hermenêutica. Este “estar a um passo” da defesa dos castigos físicos está nos olhos de quem lê, não no texto de Foucault. Critica-o pela leitura que fez, não pelo que ele escreveu. Isto é fazer tábua rasa de Foucault, é picaretagem. O curioso é que os críticos do filme, que ele chama de aiatolás, fazem o mesmo com o filme: encontram nele um fascismo que está apenas nos olhos de quem vê o filme.

Os críticos fazem tábua rasa do filme, o culpam pela sua sinceridade, por sua exposição da violência num formato que fica entre a ficção e a realidade. O que choca no filme é o realismo da sua ficção e é justamente este realismo que os críticos associam a reacionarismo e fascismo. Mas Foucault não faz o mesmo com a sociedade disciplinar? Expõe-na? A polícia carioca é violenta e corrupta, os traficantes não são protetores da favela e quem financia o narcotráfico são mesmo os consumidores. Tudo isso é verdade, agora, que culpa têm os diretores do filme disso? Eles apenas mostram, realisticamente, como as coisas são. Devíamos agradecê-los pela didática. Focuault faz o mesmo. As sociedades disciplinares funcionam por uma série de práticas institucionais de moldar corpos dóceis. Mas e daí, o que Foucault tem a ver com isso? Ele descreve, não cria tal sociedade. Foucault e os autores de Tropa de Elite estão no mesmo barco: expor as feridas de uma sociedade, na esperança de tal exposição ser transformadora. Foucault chamou isso de esclarecimento, numa referência ao conceito de aufklärung (iluminismo) em de Kant (filósofo que, aliás, Reinaldo opõe por completo a Foucault, outra picaretagem intelectual). Tropa de Elite tem seus aiatolás, Foucault os dele.

O filme não é fascista, fascista é quem vê toda essa descrição da violência e corrupção e acha o máximo que as coisas sejam assim. Se há uma mensagem no filme, ela é uma denúncia. Os fascistas apenas não entenderam que era uma denúncia, assim como os críticos não entenderam que o filme é uma denúncia. Viram-no como incitação. São maus intérpretes, péssimos hermeneutas, só isso. Não podem compreender bem uma idéia porque são viciados por outra, forte demais, que ofusca e encobre verdades, que nega evidências, como acontece com marxistas, que vêem apenas luta de classes e a “zelite” orquestrando toda opressão. Esta batalha ética em torno do filme é pura falta de um espírito iluminista. Falta de uma capacidade de nos esclarecermos que se transforma em ódio contra esclarecedores.

Reinaldo Azevedo chama os críticos do filme aiatolás, traficantes de idéias ou qualquer outra expressão, politicamente correta ou não, que signifique incapacidade de incompreensão, de dialogar, de pensar junto, de intolerância para com idéias diferentes. Os que criticam o filme fazem o mesmo com Veja e Reinaldo Azevedo. Ambos têm razão.

9 Respostas para “O bonde do Foucault e os anti-iluministas”

  1. É sim mesmo, Martinho Lutero foi perseguido quando pregou suas 95 tese…
    A verdade é que o ser humano não gosta de ouvir as verdades que merece…
    A realidade do filme é show…

  2. Gustavo disse

    Daqui a pouco aparece um pra te xingar por estar lendo a Veja…

    Uma das maiores verdades do texto é a descrição dos marxistóides, os “marxistas que nunca leram Marx”. Aliás, não são só os marxistóides propriamente, mas também alguns esquerdistas. Absolutamente nada contra Marx nem a esquerda, mas os “marxistóides” costumam mesmo ser “cegos”: enxergam apenas o que querem, distorcem sempre a realidade de uma forma que seja mais favorável fazer uma crítica a ela (independemente de qual for o assunto, tudo esá sempre errado).
    Acho que, por serem de esquerda, se vêem numa certa “obrigação” de assumirem um papel engajado politicamente, um certo caráter reacionário, ou “revolucionário”. Na grande maioria das vezes eles só fazem criticar, om um embasamento num – suposto – discurso de tal pensador… mas grande parte das vezes não apresentam idéias cabíveis pra solucionar o problema. A diversão deles mesmo é falar mal. Parece conversa de comadre, mas falando de política.

    Enfim, reforçando que não tenho nada contra a esquerda e Marx. Agora, quanto a esses chatos pseudo-intelectualizados e wannabe-engajados que, ao invés de ir ler “O Capital”, passam o dia inteiro repetindo discursos decorados de ódio à “burguesia” no nosso ouvido… já não digo o mesmo.

  3. Julio disse

    Engraçado o comentário anterior, fala muitas redundâncias sobre pensamentos a respeito dos marxistóides e nada sobre o conteúdo do texto produzido para falar do filme, mas enfim, cada maluco com sua doideira.
    Quanto ao texto propriamente, achei a análise das melhores já lidas sobre o assunto.
    A revista Bravo diz que o “Bope é Pop”, mas concorda com o texto ao dizer que “tem a intenção de traçar um painel da criminalidade no Rio de Janeiro baseado em fatos reais”, o que como dito no texto, não significa estar fazendo apologia.

    Acho que uma das maiores virtudes deste blog, além de alguns momentos de ironia acertada e do bom riso que nos proporciona, é a possibilidade trazer as coisas ao claro, mostrar como elas são, fugindo das análises superficiais que alguns desavisados são convidados a escreverem nas diversas mídias.

  4. Gustavo disse

    Bom, o “comentário anterior” não tratou especificamente do tema central do texto justamente porque essa não era a intenção. Só quis aproveitar o comentário do texto sobre os marxistóides pra puxar um gancho para expressar minha “revolta”.

  5. Paul Hugo disse

    Um pouco fora de tópico… mas acho que, às vezes, a ignorância é uma benção.

    Vejo pessoas citarem Marx, para uma realidade que Marx nunca sonhou em sua vida, vejo pessoas falarem de facismo com tal propriedade, como se tivessem realmente estado sob um regime facista…

    Enfim, é formula da verdade desmentida cem vezes vira mentira. Uma ficção vira realidade e a realidade vira uma ficção, não é mais a arte que imita a realidade, mas a realidade que imita a arte.

    Dá vontade de rir, rir para valer. É como um velho “aluno” da escolinha do prof. Raimundo dizia: “Até parece que isso é Brasil, nós estamos é na França”.

  6. Ótimo texto. As pessoas costumam converter a idéia principal das obras de alguns pensadores, principalmente se eles possuem ou pretendem possuir alguma relação. Marx, por exemplo, sofreu muita influência da ”Fenomenologia do Espírito” de Hegel e esqueceu-se que era apenas uma introdução ao sistema e que passagens mais objetivas seriam encontradas na ”Ciência da Lógica”. E essa ”conversão” não está apenas na classe intelectual, mas também no dia-a-dia, um filme como ”Tropa de Elite” desperta a reflexão e faz com que as pessoas sejam ”bombardeadas” com uma denúncia (como você bem falou) melhor trabalhada e não tão apelativa [pelo menos eu não vejo assim]. De qualquer forma, uma polêmica assim faz bem. Surgem textos e mais textos com exposições bastante interessantes sobre o tema e suas ligações.

    Saudações.

  7. [...] mais um discurso. Pode até não ganhar nada lá fora. Pode até ter ganhado muito aqui. Mas como alguns já deixaram claro: como denúncia é ótimo. E é, denuncie o quanto quiser, meu caro. Independente da imagem parcial [...]

  8. Mathias disse

    Opa, só uma coisa, Foucault e os autores de Tropa de Elite não estão no mesmo barco. O que os autores de Tropa de Elite mostram é de um sensacionalismo e uma cósmetica da fome tão intensos que tornam sua crítica superficial ao ponto de virar pop a figura do capitão nascimento. As coisas não são tão simples assim, esse é isso, aquele aquilo e a soma é essa. Isso seria contradizer o pensamento construtivo de Foucault, uma vez que essa forma cartesiana de pensar os processos nunca passou pelos seus textos. Acredito que o Foucault citado no filme é mais para fazer média com alguns intelectuais devido a própria fraqueza intelectual do filme do que para contextualizar sua obra. Na minha opnião, seu texto se perdeu nesse parágrafo. Enquanto denúncia, considero o filme um lixo tóxico e radioativo que se espalha muito fácil pela identidade criada no senso comum da classe média. Existe muita coisa melhor sendo produzida. Discutir Tropa de Elite é como ser um marxtóide do cinema nacional. Desculpe.

  9. Jefferson disse

    A denúncia do filme é clara: a polícia combatendo a aparelhagem apocalíptica do crime organizado, os microondas e os psicopatas, enquanto os marxistas canonizam todo criminoso como vítima do livre mercado, vivem em conivência com o crime, tomam banho no dinheiro público (“ong”) e ainda servem como elo moral e físico entre o tráfico e as faculdades.

    Já o Pompeu se atém exclusivamente ao excesso de violência policial. A necessidade de um batalhão especial (BOPE) para entrar nos morros, os microondas e o envolvimento dos comunistas com o trafico passaram batidos no seu texto.

    Mas o Reinaldo Azevedo é que defende ponto de vista…

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