Razão Impura

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O advogado do Diabo

Publicado por Pompeu em Fevereiro 10, 2009

 

Um dia o Diabo em pessoa apareceu diante de um advogado. Ele, sorridente, matreiro, tinhoso como ele só, pediu ajuda, queria contratá-lo. Estaria sendo acusado de uma série dos mais hediondos crimes. “Mas certamente que me confundiram com outra pessoa”, disse, com ar de vítima. “Só pode ser preconceito, afinal, me culpam por todos os males do mundo…”.

 

O advogado oscilava entre o medo e a admiração. Cogitou intimamente se, ao aceitar a defesa do Tinhoso, não estaria comprometendo sua alma. Por outro lado, os honorários prometidos são fortuna, mulheres, fama e o respeito dos homens, o que viria bem a calhar para um advogado ainda medíocre, apesar dos 16 anos de exercício da profissão. Não se decidiu prontamente. Disse que pensaria no caso, analisaria os pormenores e marcaria um novo encontro. Entregou-lhe o seu cartão. “Este é o número do meu celular. Se ocorrer algum problema, entre em contato.”. O “problema” iminente era a prisão do Diabo. A polícia já tinha até um retrato falado. Capturá-lo seria uma questão de horas.

 

Sozinho no seu escritório, consultou, pela primeira vez na vida, o Código de Ética da OAB. Talvez aquilo o ajudasse a decidir-se ou até mesmo o livrasse de perder sua alma, pois é sabido que o Diabo, por algum motivo, leva a sério pactos e, em sendo o pacto uma lei entre as partes, talvez ele seja sensível a leis em geral. Encontrou no artigo 21 a solução para os seus dilemas: “É direito e dever do advogado assumir a defesa criminal, sem considerar sua própria opinião sobre a culpa do acusado.”.

 

Tenho o direito de advogar para o Diabo e dele receber os honorários e, ainda por cima, o dever de fazê-lo, mesmo em sendo ele o Diabo. Fantástico!”.

 

Empolgou-se tanto com o artigo que tira de seus ombros o peso moral da decisão que procurou ler mais sobre o assunto. Descobriu que o advogado não defende o crime, sempre condenável, sempre vil, mas a pessoa acusada de um crime, pois assim garante a correta aplicação da pena, o que, por sua vez, reforça o sistema penal como um todo. Conclusão: o advogado é uma função essencial à justiça, mesmo quando advoga para o Diabo.

 

Se o advogado é função essencial à justiça, pois ao defender o Diabo reforça o sistema penal, que é um sistema de proteção da sociedade contra indivíduos como o Diabo, então ao defendê-lo ele está sendo leal ao Diabo ou à sociedade?” Lembrou-se do porquê de nunca aprofundar-se em estudo nenhum na vida. Quanto mais estudava um tema, menos convicto ficava. “A certeza requer alguma ignorância e a convicção absoluta, ignorância absoluta”, dizia sempre, convicto.

 

Defender o Diabo é uma coisa, mas ser leal a ele na defesa é outra. Se apenas aceitar defendê-lo no estrito limite da legalidade, ao fazê-lo, serei um escravo da lei e não dele, leal, portanto, à sociedade que criou a lei e não à Besta”. Sem lealdade ao Diabo a sua alma não seria dele. Aceitou o caso.

 

A defesa foi um sucesso. O Diabo foi absolvido de todas as acusações. Depois desta seguiram-se outros processos e defesas. Foram tantas que o advogado passou a advogar exclusivamente para o Diabo. Tornou-se famoso e rico. O Diabo, por sua vez, de tantas absolvições pelos mais escabrosos crimes, acabou tornando-se figura popular, um herói contra um sistema opressor e injusto. Fazia das suas à luz do dia sem nem mais ser acusado de coisa alguma. O advogado era dispensável, mas o Diabo resolveu mantê-lo, pois nunca se sabe.

 

Com dinheiro garantido e sem muito trabalho, o advogado pôde dedicar-se a outras atividades. Ingressou na política e teve o Diabo como o seu principal cabo eleitoral e, depois de eleito, conselheiro. Não eram mais cliente e advogado, mas amigos. Fizeram história juntos na política criando, principalmente, códigos de ética, e procedimentos burocráticos, a título de proteção do patrimônio público e controle da moralidade. Foi rapidamente tido como um grande moralista.

 

O velho advogado do diabo tinha vida social intensa, mas dedicava-se preferencialmente a atividades beneficentes e religiosas. Muitas vezes, o Diabo o acompanhava, como amigo. Divertiam-se. Ele fazia doações tão vultosas que passou a ser considerado um dos maiores beneméritos da história. Um dia, perguntou ao Diabo se ele não se incomodava como fato dele fazer o bem. O diabo respondeu: “Que bem?”. Riram e o papo ficou por isso mesmo.

 

Morreu com idade avançada. Seu velório foi cercado de honras políticas e sociais das mais diversas. Representantes de quatro religiões diferentes fizeram questão de discursar em seu velório, fora os tantos políticos. Foi um grande evento. Pelos cantos, as pessoas contavam piadas e diziam, a boca pequena, que ele tinha um pacto com o Diabo e que sua alma iria pro inferno. Alguns aproximavam-se do caixão e lhe dirigiam um molhar de nojo e faziam um rápido sinal da cruz, outros apenas olhavam, como quem olha um produto que não quer comprar no supermercado.

 

A ausência do Diabo foi notada no velório. Alguns o chamavam de ingrato e insensível. Outros julgavam que ele estaria triste demais para comparecer. Nunca se soube do real motivo da ausência diabólica, mas o fato é que desde a morte do amigo nunca mais foi visto por estas bandas.

2 Respostas para “O advogado do Diabo”

  1. qualquer semelhança com a realidade é mero acaso?

    ps. os seus podcasts são pra mim um achado. As ciências humanas com tanta fluência, senso crítico e humor.
    vontade que dá é de estar ali também, em tua aula. Pro que criei uma possibilidade: amplio o som e convido uns dois amigos pra festa: a oratória instiga nosso pensamento. Bem que podias vir pra UFRN. :]

    com outras atualizações favor avisar.

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