Razão Impura

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Fé demais

Publicado por Pompeu em Agosto 18, 2009

Edison doou praticamente todo o seu patrimônio à Igreja Unversal do Reino de Deus. Recebeu em troca um diploma de dizimista assinado por Edir Macedo e Jesus Cristo. Depois arrependeu-se da doação. Agora a discussão é se ele foi ou não um otário.

O dilema é posto na forma de crenças: Os que não acreditam na Universal, por ser crente de outra religião ou descrente de todas, tem a certeza de que Edison é o otário do ano. A dúvida é se ele não poderia ser nomeado logo o otário do século ou se ainda pode surgir alguém mais idiota no futuro. Já para quem acredita, por fé, na Universal, acha que a retribuição foi justa, afinal, muitos doam e não recebem nem ao menos um obrigado. Também nem precisaria, pois o ato de doação seria realizado como ato de demontração de fé, gratuito, sem nada esperar em torca que não os desígnios de Deus (ou Jesus). Já nosso amigo, apesar do ato tido como gratuito, recebeu o certificado tão distintivo. É um privilegiado. Jesus falou com ele, ou, pelo menos, mandou um bilhetinho.

Ambos podem estar errados.

I – Os sem-fé ou de fé diversa da Universal pecam por ignorar a fé independente da religião. A fé pela fé, em quaisquer de suas formas possíveis de manifestação, seja a fé gratuita em alguma entidade, ideologia, pessoa, plano astral, boa-fé etc.. Explico o problema disso. Ainda que a Universal seja um dos mais bem articulados estelionatos da história, a fé de seus fiéis pode ser verdadeira.

Quando surgiu nos jornais a notícia do nosso personagem, os dicursos morais sobre o caso começaram a girar em torno da seriedade ou não da Universal, cuja conclusão seria algum tipo de punição ou não para a Igreja. Providências do Estado estão sendo cobradas no sentido de proibir ou coibir as práticas da Universal como forma de proteção dos cidadãos ontologica ou circunstancialmente idiotas. Mas, na prática, isso pressuporia que o Estado tivesse o poder de dizer qual religião seria verdadeira e qual seria estelionatária. Este é um poder que o Estado não tem (graças a Deus!) e não deve ter mesmo.

A liberdade religiosa é uma conquista histórica que não pode ser mitigada. Quem pede repressão à Univeresal ignora que o valor que merece proteção do Estado é a liberdade religiosa e a fé e não uma determinada fé em detrimento de outras. Isto quer dizer que a Universal e suas práticas, assim como qualquer outra igreja ou religião, desde que respeitadas a liberdade religiosa e os direitos fundamentais, é irreprimível em suas práticas religiosas, uma vez que são instituições de manifestação de fé, valor a ser protegido. Outra consequência, no entanto, no caso de Edison, é que seu direito à doação integral de seus bens é tão sagrado quanto o seu direito de arrepender-se da fé e da doação efetuada.

Atualmente, a questão da doação de bens tem sido tratada por princípios de Direito Civil segundo os quais a restituição de doação lícita seria condicionada à demonstração de má-fé do beneficiário. Acredito, porém, que a plena proteção da fé implica tanto a proteção das doações, ainda que estranhas e imprudentes aos olhos dos descrentes, quanto o direito de restituição dos bens doados em caso de arrependimento.

Isso não quer dizer, contudo, que privilégios concedidos às grandes religiões como a isenção tributária se justifique. Convenhamos, há muito que as igrejas se tornaram empresas no Brasil, explorando canais de tv, empreiteiras, escolas, universidades, editoras etc. Viraram grupos empresariais e é justo que sejam tratadas como tais.

II – Mas os crentes também pecam. E o fazem em violação dos mesmos valores: a fé e a liberdade religiosa. Pecam contra a religião quando pregam a intolerância religiosa e quando defendem que sua fé (leia-se sua igreja) é a única verdadeira e que as ourtras são grupos criminosos ou coisa do capeta. Pecam quando defendem reserva de mercado para os de sua religião. Pecam quando pregam o voto por coincidência de fé e misturam religião com política. Pecam, enfim, quando querem converter a sua fé, que só pode ser vivenciada como um ato de liberdade política, em obrigação para todos. São tiranos em pele de santos.

Pecam contra a fé quando as doações não são feitas por fé, mas por motivos outros. Isso pode ocorrer tanto por má-fé de quem pede doação quanto por quem doa. Age de má-fé quem pede doação sob a promessa de que o doador receberá do plano metafísico benefícios que acredita improváveis. É um manipulador que se aproveita de um discurso retributivo do tipo ´doa teu fusca 76 que Jesus te dará um Audi A4 ano 2002, pouco rodado`. Peca por valer-se da boa-fé alheia, enfraquecendo-a.

Também age de má-fé quem doa não pelos motivos propriamente religiosos, mas por outros como a vaidade, por exemplo. Doa em demasia, ao exagero, pois se a fé é medida pelo tamanho da doação ou do sacrifício que ela representa, o faz para esfregar na cara de outros crentes: `sou crente, muito crente, muito mais crente que você!´. Não sei se esse foi o caso de Edison. Não o conheço. Se for, um diploma de dizimista assinado por Jesus e Edir Macedo é retribuição à altura.

Se Edison foi otário? Não sei. Deus é quem sabe, ou o plano astral, ou Shiva, os gnomos. É questão de fé.

Uma resposta para “Fé demais”

  1. Bárbara disse

    pois bem, a simples constatação de que essa mesma fé que usurpa é a mesma que acalenta. é a vida que é sem graça? espaçosa? ociosa? insegura? carente por natureza? vai saber.

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