Sou servidor público. E ainda por cima desempenho uma função burocrática na universidade. Isto significa que eu sou responsável por despachos curtos e mal redigidos sobre processos, boa parte das vezes, insanos. Tudo funciona como que por movidos por uma inércia acéfala. Alguém preenche um formulário ou um requerimento, carimbam-lhe, autuam-lhe, dão-lhe capinhas coloridas, juntam outros papéis. Neste momento aquele papelzinho mixuruca ganha uma espécie de aura de importância: torna-se um processo (pausa para exclamações – Oh!!!…). Burrocratas o pegam no colo como a um bebê, e o contemplam com queixo erguido e olhos embotados, em sinal de orgulhosa admiração. Em trajes de gala acartonada, começa seu périplo. Mandam-no para alguém que mandará para outro alguém que, por sua vez, fará o mesmo e assim por diante. Cada alguém dá sua contribuição inercial. Cada um com seu carimbo e despacho mal redigido. Até que cai nas mãos de alguém que não encontra mais ninguém para mandar a papelada carimbada, encapada e autuada. Só pode mandar de volta para o lugar de onde veio. É o momento no qual não dá mais para enrolação. É preciso mais do que um despacho, mais do que uma carimbada. É o clímax. Pedem uma decisão. Ou um parecer, que é algo entre a decisão e um despacho: é mais importante e decisiva do que um despacho, porém não é definitiva como cabe a uma decisão. É uma espécie de conselho que constrangerá alguém acima de quem a fez a acatá-la sob pena de ter que se dar ao trabalho de explicar porque não a acatou. Mais fácil acatá-la. Geralmente isto cabe a algum mané nem tão desimportante para sequer carimbar o papel, nem tão importante para dizer que decide alguma coisa. Às vezes, este mané sou eu. Mas capricho na minha desimportância idiota. Afinal, se é para fazer, que seja bem feito! Leia o resto deste post »
Posts com Tag ‘Violência’
Burrocracia
Publicado por Pompeu em Abril 24, 2007
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Desrazão e Insensibilidade
Publicado por Pompeu em Março 5, 2007
Renato Janine Ribeiro é professor de Ética e Filosofia Política da USP e um dos maiores intelectuais do Brasil. Publicou no caderno Mais da Folha de São Paulo do dia 18 de fevereiro um artigo intitulado Razão e Sensibilidade. Ele fala da morte de João Hélio. Há trechos contundentes como: “Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido”. Foi um escândalo. Leia o resto deste post »
Enviado em Direito, Política, Ética | Tagged: debate, Hélio Gaspari, iluminismo, joão hélio, pena de morte, razão, Renato Janine, Violência | Deixar um comentário »
A Morte de João Hélio e o Nada
Publicado por Pompeu em Fevereiro 21, 2007
Mataram João Hélio. Foi terrível. Revoltou a todos, e com razão. Na missa de sétimo dia várias pessoas compareceram para dar o seu apoio e demonstrar sua indignação. Muitas delas eram parentes ou amigos de outras tantas vítimas de violência. Compareceram com camisetas e faixas que lembravam outros João-Hélios. Outros crimes que também tiveram seu momento de solidariedade, que também despertaram indignação e revolta, que também nos fizeram dizer “Basta!”, mas que não bastaram. E a julgar pela repercussão política do crime, João Hélio também não bastará. Leia o resto deste post »
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